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SOBRE

Armando Merege – Camadas de pele, de tempo e de pensamento
por Katia Canton

 

Na obra do artista, figuras brotam de telas e papéis e se configuram sobre suportes variados. Há desenhos, escrituras, ranhuras, cores. Uma carga de expressão toma corpo em abundância. A potência gestual das construções de Armando Merege parece tirar partido do jogo entre intenção e acaso, do ato de sentir o próprio sentir.

"O sentir partilhado e participado constitui o aspecto essencial da estética da vida; alcanço um sentir em conjunto no mesmo momento em que perco o sentir individual: com a mesma mão dou e tiro. A estética da vida é animada por uma pulsão de identificação imediata, de participação, por um alento de comunhão das almas; é todo um mundo de sussurros e de confidências, de tremores e de consonâncias, de contágios e de fusões, de silêncios eloqüentes e de palavras cúmplices, de recordações e de nostalgias, de angústias, de emoções, de afetos, de sensações, que se alimentam da reciprocidade das trocas e de sentir o sentir..."
Mario Perniola

Artista-arquiteto, Merege tem em comum com a chamada Geração 80, período em que inicia sua carreira, um reencantamento com a ação da pintura. Mas Merege mergulha no processo pictórico de modo particular: em suas pinturas, o suporte torna-se um verdadeiro palimpsesto, onde o artista deposita camadas e mais camadas de registros. Eis porque estamos diante de um construtor de imagens e de um criador de um reservatório vigoroso de signos. Nesses seus territórios de sentir, cabem muitas leituras e olhares. Proponho, pois, aqui, alguns exercícios de pensar a obra de Armando Merege, de forma a considerá-la sob o ponto de vista do corpo, do texto e de sua relação com o tempo contemporâneo.

Obra como corpo 
A obra de Armando Merege é feita de camadas, rastros, feridas. Em seus trabalhos, as superfícies se tornam como que peles demarcadas por estranhas e potentes tatuagens, linhas de tempo, texturas, junções inusitadas. Pelas membranas das peles da tela, penetram e se oferecem um universo de texturas, tonalidades, cores, escrituras. As telas-peles são pintadas e repintadas. Verdadeiras tatuagens de argila podem grudar sobre pinturas feitas em papelão corrugado, formando uma superfície rica de ranhuras e texturas. Figurações esquemáticas—pessoas, animais, palavras—que parecem emprestadas do universo da arte bruta, compõem uma poética nua e crua. Na série Retalhos, corações, cruzes, linhas retas e tortuosas insinuam marcas feitas sobre os poros.

"A pele historiada traz e mostra a própria história; ou o visível: desgastes, cicatrizes, feridas, placas endurecidas pelo trabalho, rugas e sulcos de velhas esperanças, manchas, espinhas, eczemas, psoríases, desejos, aí se imprime a memória; por que procurá-la em outro lugar; ou invisível: traços imprecisos de carícias, lembranças de seda, de lã, veludos, pelúcias, grãos de rocha, cascas rugosas, superfícies ásperas, cristais de gelo, chamas, timidez do tato sutil, audácias do contato pugnaz. A um desenho colorido ou abstrato, corresponderia uma tatuagem fiel e sincera, onde se exprimiria o sensível". 
Michel Serres

Arte como texto
Sem ser impulsionada por um projeto sócio-político específico e sem o respaldo de movimentos ou manifestos, a ação artística contemporânea se engaja em tentativas de re-estabelecer na arte um sentido, uma mensagem, uma conexão com o observador de forma a incitar nele algum tipo de postura diante do mundo e da vida. Uma definição conceitual de arte, que emblematiza a opinião dos artistas da geração 90, pode ser esta, cunhada de uma entrevista com a norte-americana Barbara Kruger:

"Fazer arte é materializar sua experiência e percepção sobre o mundo, transformando o fluxo de momentos em alguma coisa visual, textual ou musical. Arte cria um tipo de comentário".

Se após a efervescência da pintura instituída pela Geração 80 discutiu-se e polemizou-se uma teórica "morte da pintura", à arte hoje não cabe mais uma discussão sobre questões relativas aos suportes. A pintura não morreu, tampouco a escultura. Juntaram-se a elas instalações, objetos, textos, internet e outros meios. Um elenco complexo e sofisticado de suportes e possibilidades matéricas se abre naturalmente aos artistas, que substituem essa preocupação com o meio por uma outra, ligada ao sentido. Artistas contemporâneos buscam sentido. Um sentido que pode estar alicerçado nas preocupações formais que são intrínsecas à arte e que se sofisticaram no desenvolvimento dos projetos modernistas do século 20, mas que finca seus valores na compreensão (e apreensão) da realidade, infiltrada dos meandros da política, da economia, da ecologia, da educação, da cultura, da fantasia, da afetividade. O sentido que o artista busca e então oferece em forma de obra não pressupõe uma correspondência biunívoca entre proposições e realidade. No pensamento e na arte contemporânea, utilizando as palavras da pensadora norte-americana Madan Sarup,

"ler (um texto, uma imagem) perdeu sua condição de consumo passivo de um produto para tornar-se uma atuação".

Arte é texto. É comentário sobre o tempo e a vida, que toma o corpo de uma escritura, tão subjetiva como o próprio alfabeto. Arte é hieróglifo, forma que clama sentido e sensibilidade.

A obra de Armando Merege clama por atuação. Ela justapõe, ora sobrepõe, figurações e palavras, imagens e frases, criando jogos onde o sentido não é dado. Em seus trabalhos, tudo parece clamar para um desvendamento. É como se a obra tivesse sido construída sob um código secreto ou uma linguagem siglada, que somos convidados a adivinhar, refazendo seus traços e costurando-os a nossas próprias experiências vividas. Na obra de Merege, as pinturas-anotações geram uma caligrafia singular, um hieróglifo inventado, uma junção mágica entre rastros de culturas primitivas e comentários diretos sobre questões que envolvem a vida contemporânea. Tudo se mescla numa experiência sobre limites entre estranhamento e compreensão.

Tempo como palimpsesto 
A densidade da obra de Merege é feita de um acúmulo de tempos. O tempo em que ele atua não é um tempo horizontal, cronológico. Seu tempo é um tempo em camadas, que ficam grudadas sobre a superfície da obra, acumuladas uma sobre a outra, como num palimpsesto. Esse acúmulo configura uma simbologia que ora parece arcaica, ora trata de temas atuais como a globalização. Tudo circula, desdobra, explode, produzindo a sensação de uma disjunção temporal.

"Hoje, (porém), não estamos mais diante de uma mera alteração no sentido da flecha do tempo, mas de uma explosão da flecha do tempo. O que está em pauta, e daí nossa grande perturbação, é a abolição da idéia mesmo de uma seta, de uma direção, de um sentido do tempo, em favor de uma multiplicidade de setas, direções e sentidos". 
Peter Pál Pelbart

 

(Katia Canton é PhD em Artes Interdisciplinares pela Universidade de Nova York. É professora livre-docente do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo)

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Conheci Armando Merege há muitos anos, na época em que ele ainda hesitava em abandonar a profissão de arquiteto. E de arquiteto com talento. Mas já estava começando a pintar. E acabou sendo atropelado pela vocação. Desde os primeiros trabalhos ele tem um estilo próprio, muito individual. Mesmo com mudanças temáticas consideráveis o seu estilo não mudou. Poder-se-ia dizer que Merege é um abstrato figurativo, o que seria um contra-senso. Mas como qualificar a simbologia muito definida que perpassa toda a sua obra? Ao contrário de outros artistas seus contemporâneos, ele nunca "apela" para a conquista fácil e a afronta do banal. Tudo é trabalho, muito trabalho, o que, aliado à sua criatividade inata, produz esta mistura fantástica que sugere algo vindo da profundidade de sua personalidade e que brota como mágicas flores no espaço grande da tela. Foi com muito prazer que vi esta nova série de obras na já consagrada caminhada do pintor Armando Merege.

Karlos Rischbieter/ 2000

 

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O Acaso no Encontro da Polaquinha com Oxossi no Ponto Final 
ou

A Dualidade na Pintura Atual de Armando Merege

 

Emerge de Merege o duo. Antagônicos. Complementares. Cúmplices. Nas imagens, no material, na curiosidade da vida, transparece, transgride, transpira a dualidade das coisas e da fé. Cito, para exemplo, o delicado e curioso "Ninho de Dados". Vemos os dois materiais,   cerâmica e vegetação, complementarem-se; o irônico/inusitado e o delicado, o barro da terra, o ninho do ar.

Signos seculares, gestos espontâneos, espantosas combinações. Gesso e asfalto, folha da árvore caída e limalha de ferro. Signos ancestrais da gênese da civilização. Garimpa mistérios na realidade cotidiana. Em suas telas, em seus desenhos, antigos rituais são   fortalecidos pelo olhar contemporâneo. Pinceladas certeiras desenvolveram desenvoltura; grafitti ligeiro, sincero, autêntico.

O mosaico, formado por telas de pequeno formato, testemunha à perfeição o momento artístico de Armando Merege. Lá estão os conhecidos signos: o punhal, a rosa, a caveira, corações e caracóis. Lá esta a pintura resultante de pesquisa – densa, inquieta – contaminada por saudável grafismo. Lá estão relicários da arqueologia urbana: esquecidos,  embutidos, envolvidos que foram na composição da obra, resgatados cacos do acaso.

Composições similares a mapas, a anotações alquímicas. Referências e fórmulas geométricas sútis.  Entranhadas em diversos tempos e em diversos idiomas. O amadurecimento encontrado no conjunto das obras de Armando Merege é o amadurecimento dos estudiosos curiosos, para quem cada descoberta é apenas o primeiro passo para a próxima descoberta. E, nesta sincronicidade, do segredo da serenidade ativa.

  João Henrique do Amaral/2005

 

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Já se disse que a obra de arte não aspira ao conhecimento, mas ao sentido, a um sentido que leva a compreender melhor a aventura humana. E a arte, como a música ou as grandes peças teatrais ou operísticas, a poesia e a literatura, procura alcançar esse efeito do sentido através de um jogo, de uma proposição de relações que o artista maneja com sensibilidade e agudeza de percepção.

Na pintura de Armando Merege, construída sobre relações de objetos, símbolos e estruturas gráficas e caligráficas, a procura daquele sentido se mostra com evidência. Situando a linguagem plástica no limiar de representações e notações das ciências exatas e humanas, Armando vai trabalhar seu significado, no entanto, num terreno distante desses conhecimentos. Assim, em muitas de suas telas recentes vemos notações caligráficas que não chegam a constituir propriamente um texto, ou notações gráficas oriundas da geometria e da arquitetura que não chegam a explicitar reais esquemas gráficos ou construtivos, ou ainda imagens de animais ordenadas como em representações taxionômicas da fauna e da flora, que não retêm a precisão das representações filogenéticas das ciências humanas. E, finalmente, temos a imagem de objetos cujas figuras se associam ás de instrumentos de culturas indígenas e primitivas, mas que não têm a intenção de aludir a qualquer coleção de interesse antropológico.

O que fica evidente, então, é que a representação das notações em que o conhecimento humano se organiza está presente nos quadros do artista não em sua função original (de ordenação do conhecimento), mas como lembrança da atividade do conhecimento. Permanecendo no terreno plástico, ele utiliza essas notações como memória, como rememoração inaugural do fenômeno do sentido.

Com isso as telas de Armando Merege ganham uma vertigem toda especial, em sua procura de sentido na vida contemporânea: apontam simultaneamente para muitas direções, para uma reflexão sobre cultura e sobre ecologia, sobre impasses da civilização pós-industrial, sobre relações simbólicas que aludem a um certo "inconsciente coletivo", e, fundamentalmente, apontam para o mistério. E é ao mistério que essas pinturas parecem estar mais devotadas, em sua espacialidade insólita, em seus arranjos figurativos e em sua visualidade muitas vezes exuberante. Ao mistério da permanência dessa memória que, como assinala Andreas Huyssen, na civilização contemporânea é muito mais busca que recuperação.

 

Francisco Faria /1997

 

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À diferença dos artistas da Geração Oitenta - à qual cronologicamente pertence - Armando Merege não participa de grupos, desenvolvendo um trabalho autônomo e independente. Nascido em Itararé, S.P.(58), mas radicado desde a infância em Curitiba (64), gradua-se em Arquitetura e Urbanismo pela UFPR (81). Embora desde 76, venha participando de coletivas e salões, tendo obtido importantes prêmios como "Viagem a Paris" na Mostra "Curitiba Arte 4" (88), apenas em 90 realiza a sua primeira individual na Galeria Bico de Pena. Nesta fase o artista faz uma releitura pessoal e sensível da nova objetividade brasileira dos anos sessenta e das colagens dadaístas alemãs. Como Gerchman e Vergara ele se serve de heróis anônimos dos alienantes núcleos urbanos e dos ícones do consumo, para fazer um comentário ao mesmo tempo amargo, irônico e poético da sociedade contemporânea, esmagada pela massificação. Um misto de necessidade de expressão e de ansiedade diante da vida estão no substrato da sua obra. Para construir as suas propostas, lança mão de qualquer material que esteja ao seu alcance como: colagens, têmpera, acrílica, desenho, fotos e letras.Tanto pode servir-se de camadas de tinta sobrepostas, como da espontaneidade gestual - próxima aos graffitti- que se conjugam a imagens hiper-realistas e a signos. As intervenções semânticas são, então, freqüentes.

Três anos após, a convite do Solar do Rosário, Armando Merege realiza agora a sua segunda individual. Prosseguindo o seu caminho individual e solitário, na fase atual, o artista aprofunda-se na estética pós-moderna, sem esquecer as suas raízes étnicas. Segundo German Rubiano "a identidade da América Latina está inserida em um sistema cultural de ordem planetária que não pode deixar de considerar as suas múltiplas raízes". Coerente com este princípio, Armando Merege constrói metáforas do tempo, sem esquecer uma procura emblemática própria, de ordem existencial. Utilizando signos antropológicos que remetem à civilização pré-histórica e, mais exatamente pré-colombiana, ele tenta penetrar nos mistérios ancestrais das origens do universo.Daí porque pode, eventualmente, utilizar detalhes arquitetônicos para comentar -por exemplo - a contribuição do Antigo Egito, para a concepção cosmológica do universo; ou elementos construtivos variados alguns dos quais aludem a formas espaciais extra terrestres e à provável origem do homem: ou ainda, signos diversos, de significado esotérico, que criam uma espécie de código metafísico bastante pessoal.

Comprovando sua formação como arquiteto, Armando Merege subdivide as composições em campos visuais retangulares, dando preferência à organização interna dos elementos, em vetores na vertical.Sobre estes esquemas simples, constrói uma imaginária visual complexa, cuja decodificação irá exigir toda a capacidade de percepção do espectador.Os suportes são recobertos de espécie de "all over" pictórico, construído com vibrações tonais mediante toques gestuais de cor, que se sobrepõem. Entremeam-se signos e elementos figurativos criando um clima peculiar, repleto de um imagismo telúrico, que visa atingir o espaço absoluto.

Golfinhos e rosas surgem com freqüência, em seu trabalho, sendo usado como semantemas universais.Ligados às águas, os golfinhos são símbolos de sabedoria, poder advinhatório, renascer e regenerescência. Já as rosas hiper-realísticamente construídas - que embora não deixem de ser, segundo vaticinou Gertrudes Stein: "uma rosa é uma rosa" - funcionam como espirais solares, espécie de centro místico do universo.

Construindo uma verdadeira arqueologia espacial da memória do homem, Armando Merege revela a potencialidade mágica de criação dos artistas locais; capaz de superar a catastrófica realidade que se vive neste limiar de século, para propor uma nova ontologia que nos fala de esperança.

Adalice Araujo Outubro/1993